Quando a barriga estufa com qualquer refeição
Você come uma refeição comum e, pouco depois, a barriga parece de grávida. À tarde, a calça já não fecha. Os gases são constantes, o intestino dispara em alguns dias e trava em outros. Você já cortou glúten, lactose e açúcar, e os sintomas continuam. Esse é um dos quadros mais frequentes no consultório da Dra. Luciana Matoso, e muitas vezes tem nome: disbiose.
O que é disbiose, de forma clara
O intestino abriga trilhões de microrganismos que ajudam na digestão, produzem vitaminas, protegem contra infecções e regulam a imunidade. Disbiose é o termo usado para um desequilíbrio nessa comunidade. O conceito é amplo e, muitas vezes, usado de forma vaga nas redes sociais. Na prática médica, o que se consegue diagnosticar com mais objetividade é o supercrescimento de microrganismos no intestino delgado, região que normalmente tem poucos deles.
Os tipos de supercrescimento
- SIBO: excesso de bactérias produtoras de hidrogênio, associado a distensão, gases e diarreia.
- IMO: excesso de arqueas produtoras de metano, gás que deixa o trânsito lento, associado ao intestino preso.
- ISO: excesso de produtores de sulfeto de hidrogênio, relacionado a diarreia, urgência e gases com odor forte. É uma entidade mais recente.
- SIFO: supercrescimento de fungos, principalmente Candida, com diagnóstico mais desafiador.
Sintomas de disbiose
- Barriga estufada que piora ao longo do dia e após as refeições.
- Gases em excesso: arrotos, flatulência e ruídos intestinais.
- Dor ou desconforto abdominal.
- Diarreia ou intestino preso, conforme o tipo de supercrescimento.
- Náusea e sensação de estômago cheio com pouca comida.
- Intolerância a vários alimentos ao mesmo tempo.
- Cansaço e deficiências nutricionais, como de vitamina B12 e ferro, em casos prolongados.
Esses sintomas não são exclusivos da disbiose. Aparecem também na síndrome do intestino irritável, em intolerâncias, na doença celíaca e em doenças inflamatórias. Por isso, o diagnóstico nunca deve se basear apenas nos sintomas.
Por que a disbiose acontece
- Motilidade intestinal reduzida: após gastroenterites, no hipotireoidismo, no diabetes e com uso de opioides.
- Menos acidez no estômago: uso prolongado de omeprazol e similares.
- Alterações anatômicas: cirurgias abdominais, cirurgia bariátrica, aderências e estenoses.
- Doenças associadas: doença celíaca, Doença de Crohn, pancreatite crônica e doenças do fígado.
- Antibióticos repetidos e intestino preso crônico.
- Estresse crônico, que interfere na motilidade pelo eixo cérebro-intestino.
Como é feito o diagnóstico
O exame de referência para SIBO, IMO e ISO é o teste respiratório de hidrogênio, metano e sulfeto, realizado no consultório em Belo Horizonte. A investigação clínica aprofundada busca a causa por trás do supercrescimento:
- Histórico clínico: infecções intestinais, cirurgias, antibióticos e evolução dos sintomas.
- Exames hormonais e laboratoriais: TSH, glicemia, vitamina B12, ferritina, vitamina D e sorologia para doença celíaca.
- Fatores metabólicos: diabetes, resistência à insulina e gordura no fígado.
- Sono: sono ruim aumenta a sensibilidade intestinal.
- Saúde mental: ansiedade e estresse alteram a motilidade.
- Uso de medicamentos: inibidores de acidez, opioides, antibióticos e probióticos já utilizados.
- Estilo de vida: alimentação, ritmo das refeições e atividade física.
- Relacionamento: impacto dos gases e da distensão na vida social e íntima.
Tratamento da disbiose
1. Redução do supercrescimento
Antibióticos de ação intestinal, com esquemas diferentes para hidrogênio e metano; antifúngicos quando há suspeita consistente de SIFO; e, em casos selecionados, fitoterápicos com base na evidência disponível.
2. Correção da causa de base
Ajuste de inibidores de acidez sem indicação formal, tratamento do hipotireoidismo e do intestino preso, controle glicêmico e uso de procinéticos para estimular o "sistema de limpeza" do intestino entre as refeições.
3. Estratégia alimentar e recuperação
Redução temporária de carboidratos fermentáveis, como na dieta low FODMAP, com prazo definido e reintrodução orientada, seguida da restauração da variedade alimentar.
Quando o tratamento não é indicado
Um teste positivo em pessoa sem sintomas não exige tratamento automático. E sintomas típicos com teste negativo apontam para outras causas, como intolerâncias, intestino irritável ou alteração do reflexo abdominal, que precisam ser investigadas em vez de tratadas como disbiose.
Antibióticos sem diagnóstico, probióticos em excesso, protocolos de "limpeza" e dietas restritivas prolongadas são riscos comuns da automedicação. Podem piorar o desequilíbrio, gerar resistência bacteriana, causar deficiências e mascarar doenças que precisam de outro tratamento.
Recorrência e acompanhamento
A recorrência não é rara, principalmente quando a causa persiste. O acompanhamento permite identificar cedo o retorno dos sintomas, reavaliar a causa e ajustar a prevenção, com apoio da nutricionista da equipe.
Disbiose, intestino irritável ou intolerância?
Uma das maiores dificuldades é que várias condições intestinais produzem sintomas quase idênticos. Distinguir entre elas muda completamente o tratamento:
| Condição | Pista clínica | Exame mais útil |
|---|---|---|
| SIBO ou IMO | Distensão precoce após refeições, fatores de risco | Teste respiratório com glicose ou lactulose |
| Intolerâncias | Sintomas ligados a alimentos específicos | Teste respiratório com lactose, frutose ou frutanos |
| Intestino irritável | Dor ligada à evacuação, piora com estresse | Critérios clínicos e exclusão direcionada |
| Doença celíaca | Anemia, deficiências, histórico familiar | Sorologia e biópsia do duodeno |
Com frequência, duas ou mais dessas condições coexistem. Uma pessoa com síndrome do intestino irritável pode ter SIBO associado; outra com doença celíaca pode ter intolerância à lactose secundária. O diagnóstico correto considera essas sobreposições.
A disbiose e a vida fora do consultório
Os gases e a distensão têm um impacto que vai além do desconforto físico. Muitos pacientes deixam de usar roupas de que gostam, evitam jantares e viagens, sentem vergonha no trabalho e se afastam da intimidade por medo dos sintomas. Esse sofrimento faz parte do quadro e é considerado no plano de tratamento. Quando necessário, a psicologia da equipe atua junto, especialmente quando a ansiedade em torno da comida já se instalou.
A melhora costuma ser progressiva: primeiro a distensão diminui, depois os gases ficam sob controle e, com a reintrodução orientada, a alimentação volta a ser variada e prazerosa.
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