Quando a urgência passa a comandar o dia
Diarreia com sangue, idas ao banheiro muitas vezes ao dia, urgência que não espera e sensação de que o intestino nunca esvazia por completo. Nas crises de retocolite ulcerativa, a rotina gira em torno do banheiro, o sono é interrompido e o medo de não chegar a tempo afasta a pessoa do trabalho, de viagens e da vida social. O tratamento atual permite mudar esse cenário de forma consistente.
O que é a retocolite ulcerativa
É uma doença inflamatória intestinal crônica em que o sistema imune provoca inflamação na mucosa do intestino grosso. Diferente da Doença de Crohn, a retocolite:
- Atinge apenas o intestino grosso, sempre começando pelo reto.
- Se estende de forma contínua, sem áreas saudáveis intercaladas.
- É superficial, restrita à camada interna (mucosa).
Extensão da doença
| Extensão | Região acometida | Tratamento inicial habitual |
|---|---|---|
| Proctite | Apenas o reto | Mesalazina em supositório |
| Colite esquerda | Reto até a flexura esplênica | Mesalazina oral e retal |
| Pancolite | Todo o intestino grosso | Mesalazina oral e, conforme gravidade, outras terapias |
Sintomas
- Diarreia com sangue e muco, o sintoma mais característico.
- Urgência evacuatória e evacuações noturnas.
- Tenesmo: sensação de evacuação incompleta e vontade constante de evacuar.
- Cólica abdominal, geralmente antes de evacuar.
- Cansaço, anemia e perda de peso nas fases de atividade.
- Manifestações fora do intestino: articulações, pele, olhos e fígado (colangite esclerosante primária).
Procure atendimento de urgência se houver mais de 6 evacuações com sangue por dia, febre, taquicardia, dor abdominal intensa, distensão importante ou sinais de desidratação. São sinais de crise grave que exige avaliação imediata.
Diagnóstico
- Colonoscopia com biópsias: mostra a inflamação contínua a partir do reto e define a extensão.
- Exames de sangue: hemograma, PCR, albumina, ferritina e função do fígado.
- Calprotectina fecal: útil no diagnóstico e no acompanhamento.
- Exames de fezes: para excluir infecções, incluindo Clostridioides difficile, que podem simular ou agravar crises.
Investigação clínica aprofundada
- Histórico clínico: início dos sintomas, crises anteriores, tratamentos e resposta a cada um.
- Exames hormonais e laboratoriais: tireoide, ferro, vitaminas e sorologias antes de terapias imunossupressoras.
- Fatores metabólicos: estado nutricional, saúde óssea, especialmente após uso de corticoides.
- Sono: evacuações noturnas e seu impacto no descanso.
- Saúde mental: ansiedade antecipatória em relação à urgência, frequente e tratável.
- Uso de medicamentos: anti-inflamatórios e antibióticos que podem precipitar crises.
- Estilo de vida: alimentação, atividade física e rotina de trabalho.
- Relacionamento: vida afetiva, sexualidade e planejamento de gestação.
Tratamento
O objetivo é a remissão profunda: sem sangue, com hábito intestinal normal e mucosa cicatrizada na colonoscopia. As principais opções são:
- Mesalazina (aminossalicilatos): base do tratamento das formas leves a moderadas, em comprimidos, supositórios ou enemas.
- Corticoides: para controlar crises, por tempo limitado, nunca como manutenção.
- Imunossupressores: para manutenção em casos selecionados.
- Biológicos e pequenas moléculas orais: para formas moderadas a graves ou dependentes de corticoide.
- Cirurgia: em situações específicas, como crise grave refratária ou displasia.
Cuidados de longo prazo
- Rastreamento de câncer colorretal por colonoscopia periódica em colite de longa duração.
- Vacinação antes de imunossupressores e biológicos.
- Saúde óssea e reposição de ferro e vitaminas.
- Suporte nutricional e emocional com a equipe multidisciplinar.
Riscos da automedicação
Suspender a mesalazina ao melhorar é uma das causas mais frequentes de recaída. Corticoides por conta própria acumulam efeitos adversos e mascaram a atividade da doença. Anti-inflamatórios podem desencadear crises, e antidiarreicos em crise grave podem levar a complicações. Qualquer ajuste deve ser feito com a médica.
Limitações do tratamento
Nem todos os pacientes respondem à primeira terapia, e pode ser necessário escalonar o tratamento. A resposta leva semanas. Mesmo com a doença controlada, podem persistir sintomas funcionais, que têm manejo próprio. O acompanhamento regular é o que permite ajustar o plano antes que uma recaída se instale.
Veja também como é a investigação da diarreia crônica.
Proctite: quando o sangramento é confundido com hemorroidas
Na forma mais limitada da doença, a proctite, a inflamação fica restrita ao reto. Os sintomas podem ser discretos: sangue vivo nas fezes, muco, urgência e sensação de evacuação incompleta, às vezes com fezes normais ou até intestino preso. Por isso, é comum que a proctite seja atribuída a hemorroidas por meses. Sangramento persistente, principalmente com muco e urgência, merece avaliação com colonoscopia, mesmo em pessoas jovens.
Alimentação na retocolite
Não existe uma dieta que cause ou cure a retocolite. Durante as crises, alimentos com menos resíduo e gordura podem reduzir a frequência das evacuações e o desconforto. Na remissão, a recomendação é uma alimentação variada, com atenção ao ferro, ao cálcio e à vitamina D. Restrições prolongadas por conta própria aumentam o risco de deficiências sem reduzir o risco de crises. A nutricionista da equipe adapta as orientações a cada fase.
Retocolite, trabalho e vida social
A urgência é o sintoma que mais afeta a qualidade de vida. Mesmo em remissão, muitos pacientes mantêm o hábito de evitar compromissos e viagens por medo. Parte do tratamento é recuperar essa confiança, com metas claras de controle da inflamação e, quando necessário, apoio psicológico para a ansiedade antecipatória. Com a doença controlada, a maioria das pessoas trabalha, viaja, pratica esportes e planeja a família normalmente.
Gestação e retocolite
Mulheres com retocolite ulcerativa podem engravidar e ter gestações saudáveis. O principal fator de risco para a gestação é a doença ativa, e não a maioria dos medicamentos usados para controlá-la. Por isso, o ideal é planejar a gravidez com a doença em remissão, revisar as medicações com antecedência e manter o acompanhamento durante toda a gestação e o pós-parto, em conjunto com o obstetra.
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