Dias bons, dias ruins e exames normais
Cólica que alivia depois de ir ao banheiro. Intestino que muda de comportamento sem aviso, piora nas semanas de estresse e transforma compromissos simples, como uma viagem, uma reunião ou um jantar fora, em fonte de ansiedade. Exames normais e a frase que muitos pacientes já ouviram: "é emocional".
A síndrome do intestino irritável é real, frequente e tem tratamento. No consultório da Dra. Luciana Matoso, em Belo Horizonte, ela é abordada com a seriedade que merece, com tempo para entender cada fator que mantém os sintomas.
O que é a síndrome do intestino irritável
A SII é classificada como um distúrbio da interação intestino-cérebro. O intestino não tem uma lesão visível, mas funciona de forma alterada, por vários mecanismos que se somam:
- Hipersensibilidade visceral: o intestino "sente demais", e uma quantidade normal de gases ou de conteúdo é percebida como dor ou distensão.
- Alteração da motilidade: o trânsito fica acelerado, lento ou irregular.
- Desregulação do eixo cérebro-intestino: estresse, ansiedade e sono ruim amplificam os sintomas, e os sintomas aumentam a ansiedade.
- Alterações da microbiota e inflamação de baixo grau, principalmente quando a SII surge depois de uma infecção intestinal.
Os subtipos de SII
- SII com predomínio de constipação (SII-C): dor associada a intestino preso.
- SII com predomínio de diarreia (SII-D): dor associada a fezes amolecidas e urgência.
- SII mista (SII-M): alternância entre os dois padrões.
Identificar o subtipo é essencial, porque o tratamento muda completamente de um para outro.
Sintomas
- Dor ou cólica abdominal recorrente, relacionada à evacuação.
- Mudança na frequência e na consistência das fezes.
- Distensão e sensação de inchaço, geralmente piores no fim do dia.
- Muco nas fezes, sem sangue.
- Sensação de evacuação incompleta e urgência, especialmente pela manhã ou após as refeições.
Pelos critérios de Roma IV, o diagnóstico considera dor abdominal recorrente, em média ao menos um dia por semana nos últimos três meses, associada à evacuação ou a mudanças na frequência ou na forma das fezes.
A SII não causa sangue nas fezes, perda de peso importante, anemia, febre ou diarreia que acorda à noite. Se algum desses sinais estiver presente, a investigação precisa buscar outras causas, como doença inflamatória intestinal, doença celíaca ou doenças do cólon.
Diagnóstico positivo, e não "de exclusão"
Durante muito tempo, a SII foi tratada como o que sobra depois de dezenas de exames normais. Hoje, a recomendação é fazer um diagnóstico positivo, baseado em critérios clínicos, com exames escolhidos para descartar condições que imitam a SII.
Investigação clínica aprofundada
- Histórico clínico: início dos sintomas, infecção intestinal prévia, gatilhos, tratamentos anteriores e histórico familiar.
- Exames hormonais e laboratoriais: hemograma, PCR, ferritina, TSH, sorologia para doença celíaca e calprotectina fecal.
- Fatores metabólicos: glicemia, peso e gordura no fígado, que podem modular sintomas.
- Sono: dormir mal aumenta a sensibilidade visceral no dia seguinte.
- Saúde mental: ansiedade, depressão e estresse crônico, avaliados sem julgamento.
- Uso de medicamentos: antibióticos, anti-inflamatórios, suplementos de ferro e magnésio, adoçantes e laxantes.
- Estilo de vida: ritmo das refeições, atividade física, rotina de trabalho e ciclo menstrual.
- Relacionamento: impacto na vida social, nas viagens e na intimidade, que costuma ser subestimado.
Conforme o caso, também podem ser indicados o teste respiratório para SIBO, IMO e intolerâncias, a manometria anorretal e o tempo de trânsito na SII com constipação, e colonoscopia quando há sinais de alerta ou idade de rastreamento.
Tratamento da síndrome do intestino irritável
1. Entender o diagnóstico
Entender o que acontece no próprio corpo reduz a ansiedade e, com ela, a intensidade dos sintomas. É o primeiro passo terapêutico e um dos mais negligenciados.
2. Estratégia alimentar
A dieta low FODMAP tem eficácia comprovada na redução de distensão, gases e dor em boa parte dos pacientes, sempre em três fases e com acompanhamento nutricional. Fibra solúvel, como o psyllium, é útil principalmente na SII com constipação. Regularidade das refeições e atenção ao ritmo de comer também fazem diferença.
3. Medicamentos direcionados ao subtipo
Antiespasmódicos para cólica, medicamentos para regular diarreia ou constipação, antibiótico de ação intestinal em casos selecionados e neuromoduladores em baixa dose, que atuam na sensibilidade intestinal.
4. Terapias do eixo cérebro-intestino
A terapia cognitivo-comportamental voltada a sintomas digestivos e a hipnoterapia dirigida ao intestino têm eficácia comprovada. Na equipe multidisciplinar, a psicologia atua integrada ao plano médico e nutricional.
5. Atividade física, sono e manejo do estresse
Exercício regular e sono de qualidade melhoram os sintomas e fazem parte do tratamento, não são apenas conselhos gerais.
| Subtipo | Medidas mais usadas |
|---|---|
| SII com constipação | Psyllium, laxantes osmóticos, secretagogos, avaliar IMO e dissinergia |
| SII com diarreia | Low FODMAP, antidiarreico criterioso, investigar ácidos biliares e SIBO |
| SII mista | Estratégia alimentar, antiespasmódicos, neuromoduladores em baixa dose |
Limitações e expectativas realistas
A SII é crônica e oscila. O objetivo do tratamento é reduzir de forma consistente a frequência e a intensidade dos sintomas, devolver a confiança para comer e sair de casa e ensinar o paciente a manejar as fases de piora. Nenhum tratamento isolado resolve todos os casos, e costuma ser necessário combinar estratégias e ajustar ao longo do tempo.
Riscos da automedicação
Antiespasmódicos e antidiarreicos todos os dias, laxantes estimulantes, cortes alimentares sucessivos e sequências de probióticos são comuns entre quem convive com SII sem acompanhamento. Além de não tratar a causa, essas medidas podem mascarar sinais de outras doenças, empobrecer a alimentação e reforçar a ansiedade em torno do intestino.
Seu intestino está controlando sua rotina? Agende uma consulta com a Dra. Luciana Matoso em Belo Horizonte ou online.
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