Por que investigar antes de cortar alimentos
Um copo de leite, uma fruta, um pão. Para quem tem intolerância, refeições comuns podem significar horas de gases, cólica, distensão ou diarreia. A reação natural é cortar alimentos, e a lista de proibições cresce até a alimentação ficar pobre, cara e cheia de ansiedade. Muitas vezes, sem melhora real.
O teste respiratório permite identificar com mais precisão qual carboidrato causa os sintomas e em que quantidade. Assim, o ajuste alimentar deixa de ser tentativa e erro e passa a ser uma decisão baseada em exame.
O que é má absorção de carboidratos
| Açúcar | Onde está | Por que causa sintoma |
|---|---|---|
| Lactose | Leite e derivados | Queda da enzima lactase, comum em adultos no Brasil |
| Frutose | Maçã, pera, manga, melancia, mel, sucos e xarope de milho | A capacidade de absorção do intestino é ultrapassada e o açúcar fermenta no cólon |
| Frutanos | Trigo, centeio, cebola e alho | Fermentam no intestino — muita gente que melhora sem glúten está reagindo a eles, não ao glúten |
Lactose
A lactose é o açúcar do leite, digerido pela enzima lactase. Em muitos adultos, a produção de lactase diminui com a idade, condição chamada de hipolactasia primária e muito comum no Brasil. Ela também pode surgir temporariamente depois de infecções intestinais, na doença celíaca ou em doenças inflamatórias. Saiba mais em intolerância à lactose.
Frutose
Presente em frutas como maçã, pera, manga e melancia, no mel, em sucos e em alimentos com xarope de milho. Quando a capacidade de absorção do intestino é ultrapassada, a frutose chega ao cólon e é fermentada.
Frutanos
São carboidratos do trigo, centeio, cebola e alho. Muitas pessoas que melhoram ao tirar o glúten estão, na verdade, reagindo aos frutanos do trigo. Essa diferença muda completamente a orientação, como explicado em sensibilidade ao glúten não celíaca.
Sintomas que levam ao exame
- Gases e distensão algumas horas depois de consumir laticínios, frutas, trigo, cebola ou alho.
- Cólica e ruídos intestinais após determinadas refeições.
- Diarreia ou fezes amolecidas relacionadas a alimentos específicos.
- Sintomas proporcionais à quantidade: porções pequenas são toleradas e porções grandes não.
Como o intervalo entre comer e sentir pode variar de 30 minutos a várias horas, é difícil identificar o culpado apenas pela observação, principalmente em refeições com vários ingredientes.
Como o teste funciona
- Coleta basal do ar expirado em jejum.
- Ingestão do carboidrato investigado (lactose, frutose ou frutanos), em dose padronizada.
- Coletas a cada 15 a 30 minutos por cerca de 3 horas.
- Registro dos sintomas durante todo o exame.
Se o carboidrato não for bem absorvido no intestino delgado, ele chega ao cólon, é fermentado e aumenta os gases no ar expirado. O registro dos sintomas é tão importante quanto a curva: má absorção sem sintomas não exige restrição.
Preparo
O preparo é semelhante ao do teste para SIBO: jejum, dieta com poucos fermentáveis na véspera, suspensão prévia de antibióticos e, conforme orientação, de laxantes e probióticos. Cada carboidrato é testado em um dia diferente.
Investigação clínica que acompanha o exame
- Histórico clínico: quando os sintomas começaram, restrições já feitas e resultados obtidos.
- Exames laboratoriais: sorologia para doença celíaca (antes de qualquer retirada de glúten), ferritina, vitamina D e cálcio em quem já cortou laticínios.
- Fatores hormonais e metabólicos: tireoide e diabetes, que alteram o trânsito intestinal.
- Sono e saúde mental: ansiedade em torno da comida é frequente e intensifica os sintomas.
- Uso de medicamentos e suplementos: adoçantes, polióis e suplementos com frutose podem ser a causa escondida.
- Estilo de vida e relacionamento: refeições fora de casa, viagens e a convivência à mesa com família e amigos.
Limitações e cuidados
- SIBO pode alterar o resultado: fermentação precoce no intestino delgado pode simular intolerância. Por isso, a interpretação considera a história clínica e, quando necessário, o teste de SIBO.
- Intolerância não é alergia: reações imediatas com urticária, inchaço de lábios ou falta de ar indicam alergia e exigem avaliação com alergologista.
- Doença celíaca deve ser descartada antes: retirar o glúten por conta própria pode impedir o diagnóstico.
Testes de "intolerância alimentar" por IgG, que analisam dezenas de alimentos no sangue, não são validados para esse fim. A presença de IgG costuma refletir apenas a exposição ao alimento e leva a cortes extensos e desnecessários.
O que acontece depois do resultado
Com o diagnóstico, o ajuste é individualizado: definição da quantidade tolerada, uso da enzima lactase quando útil, dieta low FODMAP temporária em casos de múltiplas intolerâncias e reposição de nutrientes que ficaram em falta. O objetivo é comer melhor, não comer menos.
Intolerância primária ou secundária
Um resultado positivo não encerra a investigação. É preciso entender se a intolerância é primária, ou seja, uma característica permanente como a redução natural da lactase, ou secundária a outra condição. Intolerâncias secundárias surgem após infecções intestinais, na doença celíaca, em doenças inflamatórias e na presença de SIBO. Nesses casos, tratar a causa pode fazer a intolerância regredir, e a restrição alimentar passa a ser temporária.
Por isso, um paciente com intolerância à lactose e anemia, por exemplo, pode ter a sorologia para doença celíaca solicitada. E alguém com intolerância a vários carboidratos ao mesmo tempo pode precisar investigar supercrescimento bacteriano.
Intolerâncias e vida social
Quem convive com sintomas depois de comer costuma desenvolver medo de comer fora de casa, recusar convites e se isolar nas refeições em família. Saber exatamente o que se tolera e em que quantidade devolve a segurança para escolher um prato no restaurante, aceitar um convite ou viajar sem uma lista de proibições. Esse é um dos resultados mais valorizados pelos pacientes, e um dos objetivos concretos do tratamento.
E se o resultado for negativo?
Um teste negativo também é uma resposta útil. Ele indica que aquele carboidrato, naquela quantidade, não é o responsável pelos sintomas, e que a restrição pode ser desnecessária. A investigação segue para outras causas, como intestino irritável, SIBO, outros carboidratos fermentáveis ou doença celíaca. Muitos pacientes voltam a consumir alimentos que evitavam há anos depois de um resultado negativo.
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