Quando comer vira motivo de preocupação
Um copo de leite, uma fruta, um pão, um prato com cebola e alho. Para a maioria das pessoas, refeições comuns. Para quem tem intolerância alimentar, podem significar horas de gases, cólica, distensão ou diarreia. Com o tempo, a lista de alimentos evitados cresce, as refeições sociais passam a ser recusadas e o medo de comer se instala.
No consultório da Dra. Luciana Matoso, a investigação das intolerâncias tem dois objetivos: identificar com precisão o que realmente causa os sintomas e evitar cortes que não são necessários.
Intolerância, alergia e doença celíaca: três situações diferentes
| Condição | Mecanismo | Sintomas típicos | Quem conduz |
|---|---|---|---|
| Intolerância | Má digestão ou absorção de carboidratos | Gases, distensão, cólica, diarreia, dose-dependentes | Gastroenterologista |
| Alergia alimentar | Reação do sistema imune | Urticária, inchaço, falta de ar, anafilaxia | Alergologista |
| Doença celíaca | Doença autoimune ao glúten | Diarreia, anemia, deficiências, sintomas fora do intestino | Gastroenterologista |
Essa distinção importa porque os riscos e os tratamentos são completamente diferentes. A doença celíaca, por exemplo, exige retirada total e permanente do glúten, enquanto a maioria das intolerâncias permite consumo em quantidades toleradas.
Principais intolerâncias alimentares
Lactose
A lactose é o açúcar do leite, digerido pela enzima lactase. Em muitos adultos, a produção de lactase cai com a idade, o que é muito comum no Brasil. A maior parte das pessoas com essa condição tolera pequenas quantidades, especialmente em queijos curados e iogurtes. Veja a página dedicada à intolerância à lactose.
Frutose
Presente em frutas como maçã, pera, manga e melancia, no mel, em sucos e em produtos com xarope de milho. Quando a capacidade de absorção é ultrapassada, a frutose chega ao cólon e fermenta.
Frutanos
Presentes no trigo, centeio, cebola, alho e alguns vegetais. Muitas pessoas que melhoram ao retirar o glúten, na verdade, reagem aos frutanos do trigo, e não ao glúten.
Polióis e galacto-oligossacarídeos
Os polióis estão em adoçantes como sorbitol, manitol e xilitol, comuns em produtos diet, balas e chicletes. Os galacto-oligossacarídeos estão no feijão, grão-de-bico e lentilha. Ambos causam sintomas especialmente em quem tem intestino irritável.
Sintomas
- Gases e distensão algumas horas após a refeição.
- Cólica e ruídos intestinais.
- Diarreia ou fezes amolecidas.
- Náusea, em alguns casos.
- Sintomas proporcionais à quantidade ingerida.
O intervalo entre comer e sentir varia de 30 minutos a várias horas, o que torna difícil descobrir o culpado sozinho.
Diagnóstico
O teste respiratório para lactose, frutose e frutanos é realizado no consultório em Belo Horizonte. Ele mede os gases produzidos quando o carboidrato não é absorvido, e registra os sintomas durante o exame, porque má absorção sem sintomas não exige restrição.
Investigação clínica aprofundada
- Histórico clínico: quando os sintomas começaram, após infecção intestinal ou uso de antibióticos, e quais cortes já foram feitos.
- Exames hormonais e laboratoriais: sorologia para doença celíaca antes de qualquer retirada de glúten, ferritina, cálcio e vitamina D.
- Fatores metabólicos: diabetes e tireoide, que alteram o trânsito intestinal.
- Sono e saúde mental: ansiedade em torno da comida é frequente e intensifica os sintomas.
- Uso de medicamentos e suplementos: adoçantes, fibras, xaropes e suplementos com polióis.
- Estilo de vida: refeições fora de casa, alimentos industrializados e ritmo das refeições.
- Relacionamento: recusa de convites, isolamento à mesa e impacto na vida familiar.
Quando há reação a muitos alimentos ao mesmo tempo, também é considerado o SIBO, que pode causar "intolerância a tudo".
Painéis de "intolerância alimentar" por IgG, que testam dezenas de alimentos no sangue, não são validados para esse fim e não são recomendados por sociedades médicas. O resultado costuma levar a cortes extensos e desnecessários.
Tratamento: comer melhor, não comer menos
- Ajuste da quantidade: definir o limiar de tolerância em vez de excluir totalmente.
- Enzima lactase antes do consumo de laticínios, quando útil.
- Dieta low FODMAP temporária em múltiplas intolerâncias, com reintrodução estruturada.
- Tratamento de causas secundárias, como SIBO, doença celíaca ou inflamação, que pode fazer a intolerância regredir.
- Reposição nutricional quando a restrição já causou deficiências.
Riscos da restrição sem orientação
Excluir alimentos por conta própria pode causar deficiências de cálcio, vitamina D, fibras e vitaminas do complexo B, empobrecer a microbiota e reduzir o prazer de comer. Em algumas pessoas, desencadeia um comportamento alimentar ansioso e restritivo. E retirar o glúten antes dos exames impede o diagnóstico correto de doença celíaca.
Limitações e expectativas
Intolerâncias primárias, como a redução natural da lactase, são permanentes, mas controláveis. O objetivo realista é que você saiba o que tolera, em que quantidade, e volte a comer fora de casa com segurança. A nutricionista da equipe ajuda a transformar o resultado do exame em um plano prático para o dia a dia.
Diário alimentar: como usar a seu favor
Antes da consulta, alguns dias de registro ajudam muito a investigação. O diário não serve para cortar alimentos por conta própria, e sim para mostrar padrões que o exame depois confirma ou descarta.
- O que comeu e em que quantidade, incluindo temperos, molhos e bebidas.
- Horário das refeições e horário em que os sintomas começaram.
- Tipo de sintoma e intensidade, de zero a dez.
- Aspecto das fezes, pela escala de Bristol.
- Fatores do dia: sono, estresse, menstruação, medicamentos e atividade física.
Com essas informações, a Dra. Luciana consegue direcionar o teste respiratório para o carboidrato mais provável e diferenciar intolerâncias de outras causas, como SIBO ou intestino irritável.
Intolerâncias e outras doenças
Intolerâncias secundárias surgem quando outra condição lesa o intestino delgado. É por isso que um paciente com intolerância à lactose e anemia, por exemplo, investiga doença celíaca, e alguém com intolerância a quase tudo investiga SIBO. Tratando a causa, a tolerância a vários alimentos costuma melhorar.
Já cortou tantos alimentos que não sabe mais o que pode comer? Agende uma avaliação em Belo Horizonte.
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